O imperdível passeio pelas rotas da Revolução de 32

Puxa o zoom... Em tempos de pandemia, viajar para determinados roteiros requer um extremo cuidado. E diante das dificuldades e até mesmo do receio de embarcar em um avião para o próximo destino, alguns passeios não deixam de ser marcantes e até mesmo culturais, quando se tem contato direto com um pouco da nossa história - e também a da natureza.

Apresentamos um roteiro que pode ser feito de carro, de bicicleta e a pé. Para isso, vamos abordar a Revolução Constitucionalista de 1932 que é um dos marcos da nossa história. Foi um movimento armado entre os estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, de julho a outubro de 1932.

O objetivo dessa Revolução era derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Constituinte. Seu início ocorreu em 9 de julho de 1932, com a revolta popular após a morte de quatro jovens pelas tropas de Getúlio Vargas, durante um protesto contra o governo federal.

Após essas mortes foi organizado um movimento clandestino chamado MMDC, que são as iniciais dos nomes dos jovens mortos. Nesse post de hoje vamos abordar as belezas e a história ainda viva da Revolução de 1932 na divisa de Minas Gerais e São Paulo.

Os moradores de Ouro Fino, Pouso Alegre e Jacutinga viram de perto o confronto entre paulistas e federais. Pelo lado de São Paulo, resquícios desta história ainda são preservados em Itapira, Mogi Mirim e Mogi Guaçu. Cidades que antes eram calmas e se tornaram em um campo de guerra.

Para fazer a rota, separamos os locais mais importantes onde ocorreram as batalhas. Apesar da história ser triste, com lutas e mortes, nos deparamos com paisagens lindas, em meio à natureza da região.


Mapa da Rota


Na divisa entre estes dois estados existe até mesmo uma rota que é reconhecida e homologada, o que pode facilitar quem deseja conhecer um pouco do que sobrou daquela quase centenária batalha entre paulistas e mineiros, tendo como palco os municípios de Mogi Mirim, Itapira, Jacutinga e seus arredores. Vamos nessa?


Parque Juca Mulato em Itapira


A "Rota de 32" é um roteiro turístico que foi amplamente propagado pelo municípios de Itapira e de Jacutinga, São Paulo e Minas Gerais, para facilitar o acesso a pontos marcantes da Revolução de 32 e também para conduzir o visitante a um turismo que ainda é pouco explorado.

O nosso marco zero é o Parque Juca Mulato, que leva o nome de uma obra de Menotti Del Picchia, escritor itapirense que é motivo de orgulho para todos nós. O Parque Juca Mulato preserva o verde, a fauna e a flora, e conta com museus e alguns atrativos culturais. E nele que fica a Casa da Cultura, que preserva em seu portal ainda a inscrição de "cadeia".

Durante a Revolução de 32 esse magnífico prédio foi usado para manter os presos trazidos pelas tropas federais, quando Itapira chegou a ser invadida. É um prédio com arquitetura incrível e que nos passa ideia do como era Itapira no século passado.





Escola Estadual Júlio Mesquita e algumas casas construídas na época


A escola Júlio Mesquita foi fundada em 1900, portanto, bem antes da Revolução. E durante o conflito, abrigou voluntários e soldados do exército. Os soldados chegavam a Itapira através da antiga estação da Mogiana e subiam até o Parque Municipal, ponto mais alto de Itapira, para observar as montanhas de Minas Gerais, onde os combates aconteciam.



Estação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro


Existia em Itapira o rama da Estrada de Ferro da Companhia Mogiana, que partia do entroncamento com outra linha existente em Mogi Mirim. De Mogi passava pela estação do Horto de Vergel, que abordaremos mais à frente, passando por Itapira, distritos de Barão Ataliba Nogueira, Eleutério e, já chegando em Jacutinga, no distrito de Sapucaí.

Por essa linha transitavam soltados, mantimentos, armas e presos. Fazia parte da estratégia evitar que o inimigo recebesse algum tipo de carregamento. Itapira contou com essa estação ativa até a década de 1980. Está preservada e é usada hoje como repartição do poder público municipal.


Praça MMDC


Situada em Itapira, talvez ninguém saiba, mas essa praça encravada no meio dessa rotatória leva o nome MMDC, que são as iniciais dos nomes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Depois, durante a revolução, a sigla se transformou num movimento paulista que conspirou contra Getúlio Vargas.


Morro do Gravi


Em Itapira, impossível não mencionar Morro do Gravi quando o assunto é Revolução de 32. O marco histórico está localizado na antiga estrada que liga Itapira a Mogi Mirim. É uma região de morros, que foi muito usado para um dos capítulos mais sangrentos da Revolução, onde os embates ocorreram. Ali ainda existem muitos resquícios e até mesmo uma trincheira preservada.



Estação de Trem de Vergel


O Horto Florestal de Vergel é uma antiga reserva de eucaliptos do Estado situado entre Mogi Mirim e Itapira. Hoje o acesso se dá pela rodovia que liga as duas cidades e por ali passava o ramal da Mogiana, que ligava São Paulo a Minas Gerais.

A antiga estação, que na verdade era um entreposto, ainda existe, apesar do péssimo estado de conservação. Mas conta ainda com o quadro negro de indicação do "trem de cima" e "trem de baixo", as amplas portas de madeira e o piso, muito bonito e ainda bem conservado, mesmo com tanta sujeira.



Casa da Família Fiordomo


Itapira ainda possui alguns prédios históricos. Fizemos questão de fotografar, neste passeio, o casarão amarelo que pertenceu à família Fiordomo, na rua principal de Itapira. Infelizmente, no início de 2021 esse casarão foi demolido, mas tive a sorte de tirar foto da casa. Infelizmente Itapira não possui proteção aos patrimônios históricos da cidades que aos poucos estão sendo demolidos.


Cemitério


O Cemitério de Itapira reserva um espaço para o mausoléu de soldados que foram abatidos durante a Revolução de 32.



Estação Sapucaí


Partimos rumo a Jacutinga. Logo na divisa entre os dois estados encontra-se o distrito de Sapucaí, que integra o município de Jacutinga. É muito curioso porque existe ainda a belíssima estação, com dois amplos galpões e a inscrição e uma estrutura que mais lembra um filme de bang-bang.

As características do espaço estão preservadas. É claro que a conservação deixa a desejar, mas é possível imaginar como era frequentar essa estação quando existia esse ramal. Detalhes na arquitetura, no piso, no acesso, nas paredes... devia ser muito lindo.


Igreja do Salto


Em Itapira, numa estrada em terra bem pertinho da divisa com Minas Gerais, chegamos até a Igreja do Salto, pertencente hoje ao Município de Itapira e que já fez parte das propriedades do Instituto Bairral. É um dos espaços mais incríveis deste passeio, desta centenária igrejinha que encanta.

A igreja está abandonada no meio da estrada. Dentro dela, o altar principal preserva a imagem de Nossa Aparecida. Já existe um movimento em Itapira visando a preservação deste espaço e em sua recuperação. Imperdível!




Estação de trem do Barão


Não tão charmosa como a estação em Sapucaí, a estação de trem de Barão ainda está muito bem conservada e bem cuidada pela Prefeitura. Durante a Revolução foi muito usada pelas tropas paulistas.



Divisa dos Estados e onde ficavam as trincheiras


Eleutério é um distrito de Itapira que está na divisa com Minas Gerais, com outro distrito já citado, de de Sapucaí. Por ali existe a antiga ponte que liga dos dois estados e nas propriedades da região estão preservadas muitas das trincheiras usadas no confronto entre paulistas e mineiros na Revolução de 32.



Casarão Frassetto


Um dos cenários preservados da Revolução de 32 é o casarão Frassetto. O sobrado é marcante pela sua arquitetura e simboliza completo resgate da história dessa região.



Eleutério


Ao lado do casarão Frassetto está a igrejinha no alto de um morro em Eleutério, que certamente existia desde a época da Revolução de 32.


Vista da igreja de Eleuterio



Antiga cadeia


Mais um pouco de Eleutério que fez parte da Revolução de 32. Antiga cadeia.





Igreja do Barão




Túmulo do Soldado


Na área rural de Itapira, a caminho da divisa com Minas Gerais, existe um marco que simboliza o túmulo de um soldado da Revolução de 32. Existe muita história em torno deste ponto do passeio, e uma curiosidade é a "lenda" que o soldado foi enterrado com os pés para fora.



Restos de munições encontradas nas trincheiras



Bunker de 32 em Mogi Mirim


Mogi Mirim é uma das cidades mais antigas da região, com mais de 250 anos de história. Foi nela que D. Pedro II inaugurou a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, que contribuiu para o desenvolvimento do Estado e, consequentemente, do país, transportando a produção agrícola, principalmente, o café, que era exportado para a Europa.

Margeando o antigo ramal, rente ao Rio Mogi Mirim, funcionava onde hoje está uma escola técnica o antigo Centro de Menores, que mais tarde se transformou em Febem, até a sua desativação.

Naquela área moravam menores infratores que vinham de todas as partes. O antigo Instituto foi criado no início do século passado, portanto, antes da Revolução. E foi ali que se construiu um bunker que foi anos depois usado durante a Revolução, possivelmente para armazenar mantimentos, armas e até mesmo soldados.

Fomo visitar o bunker. Quem nos recebeu foi o turismólogo Ed Alípio, da Prefeitura de Mogi Mirim. O bunker está cerca de árvores e está bem preservado. O acesso é por uma escada. É apertado até descer dentro dele. E vale a visita! O bunker tem sua construção preservada.

A boa notícia é que o bunker começa a passar por um processo de resgate. Será feita uma reforma no acesso e as visitas serão guiadas.

Se você se interessou pelo bunker, fiz uma entrevista com Ed Alípio que estará disponível no IGTV do meu Instagram @alessandrakleis. Em frente ao bunker existem duas fileiras com 32 jabuticabeiras. Seria uma coincidência?



Antiga cadeia de Mogi Mirim


O prédio da Delegacia de Polícia de Mogi Mirim, que tinha em seu anexo uma cadeia, foi construído e inaugurado em 1920. Fica no centro de Mogi Mirim.


Monumento em Mogi Mirim


Memorial dos soldados da Revolução Constitucionalista de 32.



Antigo Campo de Aviação


Bem próximo da estrada que liga Mogi Mirim a Campinas está o antigo campo de aviação, desativado em 1994, quando o aeroclube municipal foi transferido para outro espaço. Esse campo de aviação teve papel importante na Revolução de 32, porque a Força Pública do Estado - que depois se transformou em PM - trouxe seus aviões para o combate.

Existem histórias das mais diversas, de confronto aéreo e até de avião abatido em solo mogimiriano, como relam jornais da época. Hoje o antigo hangar se transformou em sede do Corpo de Bombeiros e da Guarda Municipal de Mogi Mirim.



Divisa de Minas Gerais e São Paulo


Confira as paisagens desse local. Um lado da pedra esta escrito Minas Gerais do outro São Paulo.



Gostaríamos de agradecer ao historiador itapirense Eric Apolinário, autor do livro Inverno Escarlate, que traz muitos relatos sobre a Revolução de 32. Quem quiser saber mais sobre o livro e a história, acesse nosso IGTV. E também agradecemos o turismólogo Ed Alípio, que nos levou ao bunker e contou toda a história do local.


Quer acessar outros sites com dicas de passeios gratuitos? Fica a dica!!!


Abcdosviajantes: Passeios gratuitos em Lisboa Viajando com a Cintia: Passeios gratuitos em São Paulo Enquanto Elas Crescem - Templo Zu Lai Com Crianças - Passeio gratuito Flor na Cabeça - O que fazer de graça em Roma: 10 lugares para visitar




6 comentários